Até quando, meu Deus?

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Quantas famílias de trabalhadores da segurança pública ainda terão que ficar órfãs porque os criminosos estão cada vez mais ousados, bem armados e impunes?

Wagner Cavalieri, juiz de direito da Vara de Execuções Criminais de Contagem/MG

Sirvo-me das sábias palavras do doutor Wagner Cavalieri para iniciar minha breve reflexão sobre mais um guerreiro que deu sua vida para defender a sociedade e que não voltou para sua família ao final do turno de serviço.

 

 

Ontem, recebemos a triste notícia que um policial militar foi assassinado por bandidos que fugiam após roubarem dois bancos em uma cidade do interior de Minas Gerais.

Em uma operação conjunta das polícias militar e civil, três dos quatro bandidos foram presos no meio do mato e apreendidas pelo menos oito armas de fogo de diversos calibres. Todos os bandidos com ficha criminal.

Realmente, doutor Wagner Cavalieri, como o senhor afirmou: bandidos ousados, mataram covardemente um policial; bandidos fortemente armados, tinham pelo menos duas armas cada um deles, fora as que foram levadas pelo bandido que fugiu; e bandidos impunes, todos reincidentes por roubo ou porte de arma de fogo.

 

Esta é a triste realidade que vivemos pelo país afora. O cabo Marcos não foi o primeiro policial e, temos certeza, que não será o último a perder a vida no exercício da função ou em razão dela.

No artigo Segurança pública, responsabilidade de todos, não só da polícia, citei um estudo feito por pesquisadores da Faculdade Getúlio Vargas que informava que morreram 490 policiais somente em 2013 no Brasil, uma média de 4 policiais mortos a cada 3 dias em nosso país.

Há pouco tempo, um áudio foi bastante compartilhado quando da morte de um policial. Em um trecho deste áudio, um colega de serviço dizia o seguinte:

Morre policial todo dia e os colegas continuam rindo, achando que não vai chegar nossa vez. Vai chegar sim porque é uma fila. A fila andou de novo, vai chegar nossa vez. Não adianta correr, não.

Se continuar de braços cruzados com medo do regulamento, com medo de ser preso, de ser detido, de ser excluído, vai perder a vida, vai deixar a família, vai deixar a mulher, vai deixar as crianças sem a presença do pai… tudo pela covardia de reivindicar o direito a vida, de reivindicar seus direitos (…) É mais uma família que fica órfã, é amigos que deixam de ter a presença do amigo (…)

Estamos sendo motos, massacrados, humilhados (…) A hora de mudar não tem que ser amanhã, não. Acho que tem que acontecer isto é hoje, é agora, enquanto ainda temos vida. Porque, depois que morrer, ferrou, não tem nada mais para se fazer, a não ser lembranças que ficam. E depois elas são esquecidas. (…)

Quem será o próximo da fila a morrer, eu ou você?

Este colega falou a mais pura verdade. Todos nós temos algum irmão de farda que já morreu por causa da profissão. E podemos ser os próximos.

Lembro-me que, em meu estágio de recruta, vi morrer o soldado Alexsander durante a intervenção em um desacordo comercial. O militar morreu com uma punhalada no peito porque o cara não queria pagar um churrasquinho.

Ontem, o cabo Marcos foi assassinado. Amanhã, a vítima pode ser eu ou você que está lendo este texto.

Depois de assassinarem o militar, os bandidos foram presos. Foi feita justiça? Para nosso direito, sim. Os indivíduos cometeram um crime e foram presos por ele. Mas e a justiça para a família do policial? Será que a família já recebeu a visita de algum representante dos Direitos Humanos?

O sangue derramado na pequena Santa Margarida servirá, queira Deus, para que haja reflexão sobre os rumos que a sociedade pretende. Continuarão a defender cegamente os bandidos ou se postarão ao lado dos homens de bem? (…)

Nós, Juízes de Direito, Procuradores e Promotores de Justiça e policiais estamos sentados no banco dos réus assistindo, boquiabertos, os defensores dos direitos humanos se insurgirem contra nós, acusando-nos de tortura e abuso de autoridade, deixando a mercê da própria sorte a sociedade indefesa (…)

Andrea Miranda Costa, juíza de direito da 2ª Vara de Tóxicos de Belo Horizonte/MG

Doutora Andrea, quando ingressamos na corporação, sabíamos do risco de vida, tanto que fizemos o juramento de defender a sociedade, mesmo com o sacrifício da própria vida. No entanto, esperamos que, se morremos por esta causa, o sacrifício não seja em vão.

Um dos principais problemas é a legislação brasileira protecionista destes bandidos. Para eles, estão reservados, como a senhora mesma afirmou, poucos anos de cárcere e logo, embalados pelos ardorosos defensores dos direitos humanos, sairão às ruas a caça de novas vítimas.

 

Conversando com um colega de serviço, ele disse uma coisa que amolda-se perfeitamente a este cenário que estamos vivendo atualmente:

O povo brasileiro é muito tolerante. As coisas acontecem e todos aceitam sem reagir. Em outros países, o povo não aceita tudo calado. 

Soldado Tales – PMMG

Realmente, em um país que o cidadão de bem não  pode ter uma arma para se defender, enquanto qualquer bandido pé-de-chinelo anda armado; em um país que uma deputada federal chora quando um bandido é morto; em um país que idiotas defendem que o policial só pode atirar depois que for alvejado, a tolerância com o errado é absurda.

Neste contexto de inversão de valores, faço questão de frisar mais um trecho da fala do doutor Wagner Cavalieri:

A lista está cada vez maior: policiais milites, policiais civis, agentes prisionais, guardas, federais, vigilantes, etc… Passam-se alguns dias e caem  no esquecimento da sociedade pela qual se dedicam, mas não  no nosso…

Quantos mais terão que tombar para que nós, autoridades e sociedade de bem, entendamos que algo radical precisa mudar? Para entender que precisamos voltar as coisas para a ordem natural e pararmos com essa inversão de valores que paira sobre nós?

Doutor Wagner Cavalieri, concordo plenamente com a urgência de mudança. Atualmente, o errado passou a ser certo e o certo passou a errado.

Policiais prendem um bandido e, em uma audiência de custódia, o bandido é mandado de volta para as ruas cometer mais crimes, enquanto o policial é denunciado por abuso de autoridade por ter feito a prisão e tortura pelo bandido ter se lesionado na resistência a prisão.

Enquanto isto, convivemos com salários estagnados há mais de dois anos, além de atrasados e parcelados. A situação financeira do Estado está difícil? A nossa também. Difícil ter estímulo para continuar a combater o crime.

Hoje, o cabo Marcos foi sepultado com honras militares, salva de tiros, bandeira do Brasil sobre o caixão, discurso emocionado do Comandante-Geral da corporação. O governador do Estado anunciou que fará uma homenagem póstuma ao cabo Marcos com a medalha Dia de Minas.

guarda fúnebre do cabo Marcos

Claro que queremos honras militares de sepultamento e medalha de honra, pois fizemos por merecer com nosso sacrifício. Mas também pedimos ao Comandante-Geral e ao governador que valorizem mais o policial enquanto ele está vivo.

Garanta uma escala de serviço menos desgastante para termos mais tempo para nossas famílias.

Pague nosso salário em dia e o reajuste assim como o salário de todo trabalhador para que consigamos manter nossa qualidade de vida.

Dê-nos oportunidade de progressão na carreira com redução do tempo de serviço para promoção a próxima graduação ou posto.

Abra concursos internos com mais vagas e aproveite o maior número possível de candidatos aprovados como forma de valorização da dedicação exclusiva do policial militar a sua atividade.

Aos bravos colegas de serviço, eu peço uma coisa:

Sei que cada caso tem suas peculiaridades, mas, se eu morrer no combate, não deixem meus assassinos vivos.

Para encerrar com este tema tão triste, vou citar a mensagem do coronel Cícero chamando a atenção das pessoas para a exposição desnecessária da imagem de nossos companheiros de serviço. Respeitem a honra do guerreiro e de sua família!

Se, no desempenho do meu sacerdócio profissional (não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Romanos 13:1b), eu realizasse o extremo sacrifício com o qual me comprometi em juramento – “mesmo com o sacrifício da própria vida” – não gostaria de ser lembrado pelos meus irmãos e por aqueles que me amam tombado no chão sobre o meu sangue.

Quando comandava companhia e liderava uma Equipe de Bravos, vi, diversas vezes, o mais bravo que eu conheci, Tenente Faria, antes de enfrentar a morte, parar em um canto para urinar. Ele dizia: “se eu morrer em combate, não quero ser encontrado mijado”.

A dignidade cabe em todas as situações e nós que sentimos a perda de nossos irmãos de farda e sacerdócio temos que ser nobres ao honrá-los.

Se você postou a foto de nosso irmão Cb Marcos de modo indigno, sugiro que a substitua.

Coronel Cícero – PMMG

Cabo Marcos, receba minha continência! Você é um herói e será sempre lembrado como um guerreiro do bem. Agora, cabe a nós que ficamos não deixar que sua morte tenha sido em vão. Vá em paz, meu irmão!

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