Reflexos da exigência de curso superior para soldados da PM

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Segundo Isaac Newton, toda ação gera uma reação de igual intensidade e sentido oposto. A relação entre esta lei da Física e a alteração do requisito de escolaridade para inclusão na PMMG evidencia mudanças no perfil dos candidatos, com destaque para uma interessante constatação: advogados estão concorrendo as vagas para soldados.

Tal fato não é absurdo, principalmente devido a crise econômica que assola nosso país, gerando desemprego em todos os setores, mas poucas pessoas afirmariam que, um dia, isto seria uma realidade.

 

 

Em agosto de 2010, a Lei Complementar 115 alterou o Estatuto dos Militares do Estado de Minas Gerais, prevendo que os candidatos a vaga de soldado deveriam possuir nível superior de escolaridade e, a vaga de oficial, bacharelado em Direito.

Apesar da previsão legal estar vigente desde 2010, somente em 2015 o curso superior passou a ser cobrado pelos editais de concursos para soldados da PMMG. No artigo Exigência de curso superior para soldado agora é realidade também em Minas Gerais tratamos desta alteração de forma mais específica.

Retornando a questão dos advogados que pretendem trocar seus ternos por uma farda, tive a oportunidade de trabalhar como aplicador de provas dos dois últimos concursos para soldado e percebi que não somente advogados estão brigando por estas vagas de soldados, mas também engenheiros, contadores e outros profissionais liberais.

 

Foto: Marcos Santos

Assim como eu, outros militares tiveram esta mesma percepção. Há alguns dias, um post publicado pelo sargento Luciano chamou-me a atenção devido a sutileza da quebra de paradigma de nossa sociedade que sempre considerou o advogado um exemplo de sucesso profissional (até mesmo por isto o título de doutor), enquanto o policial sempre foi exemplo de falta de opção profissional.

No dia 19/02/17, eu apliquei a prova do Concurso para Soldado da PMMG e um acontecimento me chamou a atenção: era uma sala em que havia 30 Jéssicas e que passei conferindo uma por uma, através do documento de identidade. Em algum momento, durante a revista, uma das candidatas me apresentou nada mais que uma carteira da OAB. Isso mesmo, Ordem dos Advogados do Brasil. Isso me levou a uma reflexão que me lembrou um fato quando eu era criança e escutei de alguém que não me recordo: “Tá vendo esse Soldado apitando o trânsito? Pois é… Ele não quis estudar, teve que ser policial.” A vantagem é que agora teremos um advogado apitando o trânsito! – Sgt Luciano

Por ser amigo pessoal do Sgt Luciano, militar muito inteligente e de excelente caráter, tenho certeza que ele não quis diminuir a figura do advogado, mas mostrar que, atualmente, a realidade do soldado é outra.

Conversando sobre o tema, ele disse-me que realmente ficou espantado quando viu a carteira da OAB da candidata. “Os tempos mudaram… Graças a Deus, a sociedade e a PM estão evoluindo”.

Particularmente, não vejo problema algum em ter um advogado em minha equipe. Muito pelo contrário, seu conhecimento será bem aproveitado tanto nas ocorrências mais complicadas, quanto nos simples procedimentos policiais de rotina.

Sinceramente, prefiro trabalhar com um soldado que vai “pisar no freio” porque sabe que não existe previsão legal para certos procedimentos que com um militar que cometerá erros por desconhecimento ou inconsequência do resultado de seus atos para a equipe.

 

 

Outra crítica em relação aos novos soldados com curso superior é que eles farão da PM um trampolim para outras carreiras. Neste ponto, concordo com os críticos, mas não com a carga excessivamente negativa da crítica.

Realmente, um advogado vai ser soldado até o dia que passar em outro concurso que pague melhor ou que seja uma profissão menos perigosa. Mas será que a maioria de nós que já somos militares há mais tempo não faríamos o mesmo se tivéssemos oportunidade?

Eu, por exemplo, fui soldado, sou sargento e pretendo ser oficial da PM. Mas, terminando meu curso de Direito, também pretendo fazer a prova para delegado da Polícia Federal ou outro cargo melhor. Por que não?

A ressalva que faço é quanto a qualidade do serviço prestado enquanto eles forem policiais militares. Se ficarem três, cinco, dez anos, que sejam excelentes profissionais neste período, ajudando-nos a fazer uma Polícia Militar melhor para a sociedade.

 

soldados da PMMG

 

Mas só um aviso para os senhores advogados: ser um policial militar é muito mais difícil que parece!

Vocês não serão chamados de doutores, nem terão uma salinha com ar-condicionado; terão que acostumar em ser o soldado Fulano e queimar a pele sob o sol escaldante.

Vocês poderão demorar alguns minutos para resolver uma ocorrência policial, mas, na maioria das vezes, terão pouquíssimos segundos para tomar uma decisão.

Um erro como advogado pode custar a perda de uma ação judicial; o erro como policial pode custar sua vida.

Citando novamente o Sgt Luciano, “Os tempos mudaram… Graças a Deus, a sociedade e a PM estão evoluindo”. Concordo plenamente com ele e complemento o raciocínio: tolo é aquele que não procura se adequar a tal evolução.

E você, o que pensa sobre o tema? Deixe seu comentário abaixo!

7 Comentários


  1. Olá boa noite tenho 23 anos e quero muito fazer parte dos guerreiros de farda sei que a minha caminha vai ser longa por que tenho que fazer o ensino superior mas não desisto de colocar a minha farda

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    1. Boa noite, Natiele

      Muito bom, guerreira! O desejo antecede a glória!

      Dedique-se ao máximo e realizará seu sonho!

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  2. seu blog é muito legal.eu não tenho ideia do que fazer da vida,por isso acho uma boa ser soldado.vou fazer o ensino superior e vou prestar concurso.admiro muito os homens de farda

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    1. Boa noite, Marcos

      Com certeza, é uma boa opção. Mas como você não tem certeza se é isto mesmo que você quer, sugiro que visite um quartel perto da sua casa e converse com os militares para saber como é a rotina de um PM.

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  3. Tem alguma chance disso ser derrubado,e voltar a exigir ensino médio??

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    1. Bom dia, Alexandre

      Nesta vida, tudo é possível, mas nem tudo é provável. Particularmente, não acredito que volte para ensino médio.

      No entanto, um leitor do blog postou um comentário no artigo Exigência de curso superior agora é realidade também em MG, relatando que um defensor público enviou uma recomendação a PMMG para que ela deixe de cobrar ensino superior, retornando a ensino médio.

      Confira aqui os argumentos do Defensor Público Roger Vieira Feichas.

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  4. Penso que assim como os políticos usam de subterfúgios para conseguirem realizar algo em seu favor, o policial “antigo” realizava, fazia acontecer, e depois de “acontecido” já aconteceu, não tem volta.

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