Qual a importância da defesa pessoal para a atividade policial?

Tempo de leitura: 11 minutos

 

Briga entre torcedores e policiais em estádio de futebol
Foto: Ale Vianna/Folhapress

Está virando moda desobedecer às ordens policiais, resistir a abordagem e, como se não bastasse, ainda partir para cima dos agentes públicos com socos e pontapés. Este é o tipo de situação em que, se o policial não souber um pouquinho de defesa pessoal e técnicas de imobilização, terá bastante dificuldade para dominar o abordado.

Ao contrário do que a maioria das pessoas acham, nem toda ocorrência é resolvida no tiro. Muito pelo contrário, na maioria das vezes, o policial realiza a prisão usando a força física e instrumentos que têm menor probabilidade de causar a morte ou lesões graves no indivíduo resistente.

Quem nunca viu dois, três, quatro ou mais policiais tentando dominar um abordado resistente e não dando conta do serviço? Até mesmo mulheres e adolescentes costumam dar muito trabalho.

Com certeza, você já viu algum vídeo em que policiais passam muita dificuldade para dominar e algemar uma pessoa, não é verdade? E se você tem um pouco de conhecimento de alguma arte marcial, percebeu que os policiais perdem diversas oportunidades de resolver a situação.

Isto se deve a um grave erro: muitos policiais não gostam de treinamento de defesa pessoal. Nos dias de instrução semanal, preferem sempre jogar futebol que ir para o tatame praticar algumas técnicas de imobilização. E assim vão levando a vida!

O problema é se depararem com uma situação que não é possível usar a arma de fogo. Aí vão na mão mesmo e ficam fazendo força, muitas vezes, desnecessária e desproporcional.

Nestas ocasiões, é comum ver um policial puxando o braço e outro puxando a perna do abordado, mas nenhum dos dois aplicando uma torção que imobilizaria o indivíduo. Pior ainda é ver o abordado aplicando um golpe de jiu-jitsu no policial e jogando-o de costas no chão.

 

Treinamentos de Defesa Pessoal Policial

Em todo curso de formação e em algumas instruções, os policiais aprendem técnicas de defesa pessoal. Aprendem na hora, mas muitos não praticam depois.

E como tudo que não é praticado, o cérebro humano entende que não é importante, na hora que o policial for atacado ou precisar dominar um abordado, ele não se lembrará de uma forma eficiente e segura de atuar.

treinamento de defesa pessoal policial e imobilização

 

Já passei por uma situação difícil na época que ainda trabalhava na capital: dei ordem para que um jovem colocasse as mãos na cabeça para realizar busca pessoal.

Meu patrulheiro localizou uma bucha de maconha entre os dedos do abordado, que ficou nervoso e tentou impedir o restante da busca. O rapaz jogou o corpo para trás e caiu no chão junto com o militar.

Para piorar, um morador que via a situação e conhecia o abordado disse para tomar cuidado que o rapaz era lutador de Jiu-Jitsu. Uma equipe ROTAM chegou para o apoio em menos de dois minutos, mas pareceram mais de duas horas. Que sufoco!

Conversei sobre este tema com diversos policiais militares instrutores de defesa pessoal da corporação, entre eles o Ten Vitor e Cb Glauco (Jiu-Jitsu), Sgt Ramon (Aikido) e Sgt Ronier (Karatê), que contribuíram bastante para este artigo.

O Sgt Ramon do GATE, instrutor de defesa pessoal da 12ª Cia de Missões Especiais e faixa preta 1º Dan de Aikido certificado pelo Japão, relatou que o número de praticantes de artes marciais tem aumentado constantemente, com destaque para o Jiu Jitsu e o Muay Tai.

Particularmente, considero que isto se deve principalmente ao efeito midiático produzido pela televisão. Um canal enfia na cabeça das pessoas que dar socos, cotoveladas e chutes até desmaiar o adversário é um esporte. O sangue e fraturas são apenas detalhes. Canal Combate a parte, voltemos ao contexto policial.

 

Qual a arte marcial mais adequada a atividade policial?

Se o treinamento de defesa pessoal não é tão frequente e efetivo na corporação, muitos policiais tem procurado as academias de artes marciais para se qualificar. Neste momento, fica a seguinte questão:

Diante de tantas artes marciais, qual tem mais a ver com a prática policial?

policial militar e lutador de jiu-jitsu

 

Se o objetivo é aprendizado e aplicação na vida pessoal, como competições desportivas, toda arte serve e cada uma tem seu potencial específico.

Por outro lado, se o objetivo é conhecer para aplicar na atividade profissional, deve-se ter cautela com a escolha da arte marcial. Apesar de todas elas condicionarem o praticante a defender-se, o resultado deve ser levado em consideração.

Sem querer desmerecer uma ou outra arte, o policial deve ter em mente que ele não age em nome próprio, mas como representante do Estado. E como tal, deve evitar o mal maior. Fraturas de crânio, dentes arrancados e outras lesões graves devem ser evitadas.

Os policiais precisam entender que são integrantes de uma corporação e devem atuar conforme os princípios dela, sob pena de serem questionados quanto aos atos contrários às determinações recebidas.

No artigo Sorria polícia, você está sendo filmadolembramos que o militar está sempre sendo observado. E durante uma abordagem, sempre há alguém com o celular filmando a ação policial, torcendo para o pau quebrar. Os vídeos de ações policiais costumam viralizar nas redes sociais e chegam ao conhecimento do comandante do policial antes que ele preste anúncio da ocorrência.

Imaginem a foto de um policial chutando a cabeça de um suspeito agressivo! É tudo que um repórter precisa para colocar como destaque principal em uma capa de jornal. Claro que tem abordados tão agressivos que é necessário a elevação do nível de uso da força, recorrendo aos instrumentos de menor potencial ofensivo.

Instrumentos de Menor Potencial Ofensivo

A defesa pessoal é um conjunto de técnicas que visam neutralizar um ataque pessoal. O policial pode se defender de abordados agressivos utilizando técnicas com mãos livres, bem como alguns instrumentos para auxiliá-lo.

  • Tonfa – Instrumento parecido com o bastão de madeira, mas de menor tamanho. Muito fácil de ser manejado e disponível em grande quantidade para os policiais.

Poucos policiais sabem utilizar a tonfa com eficiência. No entanto, aqueles que dedicam alguns minutos no início de todo turno de serviço para praticar os golpes de esquiva e ataque com a tonfa tem maiores chances de sucesso durante um confronto com indivíduos agressivos – Sgt Ronier

 

  • Spray de Pimenta –  equipamento apropriado para desnortear momentaneamente o abordado, tempo suficiente para que outros militares façam a imobilização e algemação do indivíduo.
  • Pistola de Impulsos Elétricos – Instrumento muito eficiente para utilização em ocorrências com abordado sob efeito de drogas ou que insista em desobedecer as ordens policiais. Apesar de seu percentual de resolução de ocorrências com mínimas consequências negativas para o policial e para o abordado, este instrumento ainda é pouco disponibilizado para a tropa, principalmente no interior do Estado.

Legalidade do uso da força pelo policial

O uso da força está previsto em nossa legislação, tanto nos manuais policiais, quanto nas leis penal e processual penal. Quando ressaltamos que o policial deve atentar para os resultados de sua ação, não quer dizer que ele deva evitar abordar. O que deve ser levado em consideração é a legalidade de seus atos.

 

Policiais militares fazendo a prisão de um ladrão de moto

Código de Processo Penal

Art. 284 – Não será permitido o emprego de força, salvo a indispensável no caso de resistência…

Art. 292 – Se houver, ainda que por parte de terceiros, resistência a prisão em flagrante ou a determinada por autoridade competente, o executor e as pessoas que o auxiliarem poderão usar dos meios necessários para defender-se ou para vencer a resistência…

Código Penal

Art. 23 – Não há crime quando o agente pratica o fato:

I – em estado de necessidade;

II – em legítima defesa;

III – em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular do direito.

O Código Penal e Processo Penal norteiam o uso da força, garantindo-lhe legalidade, com previsão de quando ela pode ser utilizada. Fica evidente que um abordado resistente está passível de sofrer a ação policial necessária para quebrar esta resistência.

No âmbito interno, a corporação também direciona a atuação de seus integrantes. O Caderno Doutrinário 1 PMMG (Intervenção Policial, Processo de Comunicação e Uso de Força) determina que o uso da força deve ser balizado pela análise dos princípios da legalidade, necessidade e proporcionalidade.

Qualquer conduta policial que seja contrária a vontade do abordado exige certo nível de uso da força. Entretanto, o policial que tem o hábito de treinar usará menos força física e mais técnicas de defesa pessoal e imobilizações.

Ressalte-se que, tão importante quanto saber aplicar as técnicas de defesa pessoal e imobilização, é conhecer o momento, o modo e o limite da atuação policial.

Vivemos em tempos de inversão de valores. Não basta fazer… tem que fazer com o mais alto grau de profissionalismo – Sgt Ramon

Diante da atual conjuntura jurídica, devemos ter em mente uma ressalva importantíssima: a mesma lei que prevê a possibilidade do uso de força contra indivíduos que resistam a atuação policial também prevê punição para os agentes públicos que excedam no uso da força.

 

Depoimentos pessoais

Para mostrar a importância de conhecer técnicas de defesa pessoal para a atuação na atividade policial, analisemos algumas histórias reais pelas quais alguns policiais passaram:

1º Caso:

A equipe atende uma ocorrência em que um senhor teria se escondido em casa após ter esfaqueado outra pessoa. Enquanto dois militares batiam na porta da frente da casa, o Sd Marconi ficou nos fundos do imóvel, caso o suspeito tentasse fugir por ali.

E foi o que aconteceu. O suspeito pulou a janela, mas foi flagrado pelo Sd Marconi, que pediu apoio dos outros dois militares. Apesar de serem três policiais, o senhor deu muito trabalho para ser imobilizado e preso.

Hoje, pratico Jiu-Jitsu há mais de três anos, sou faixa azul, sei que a caminhada é grande, mas o treino constante me dá mais confiança para os momentos em que seja necessário usar força física para imobilizar um infrator. Posso garantir que é melhor saber e não precisar usar do que precisar e não saber Sd Marconi  

2º Caso:

Três militares fizeram a prisão de um rapaz durante um show musical. A área do evento estava lotada e os policiais tinham que sair do meio do público com o preso. De repente, um indivíduo, inconformado com a detenção de seu amigo, deu um chute que quase acertou a cabeça do Cb Glauco.

Não satisfeito, ele agarrou o militar, segurando pelo colete, de uma forma que demonstrava ter conhecimento de alguma arte marcial. Para piorar, o indivíduo meteu a mão na arma do militar, tentando retirá-la do coldre e falando “eu vou te matar”. Situação complicada, né?

Foram alguns minutos de tensão, mas como o policial já era praticante de Jiu-Jitsu, ele conseguiu reverter a situação e aplicar um mata-leão, que desacordou o indivíduo por alguns segundos, tempo suficiente para dominá-lo.

Além de praticar as técnicas aprendidas no treinamento da corporação, os militares devem buscar um treinamento complementar em academias de artes marciais, pois, se tiverem que enfrentar indivíduos que tenham conhecimento de alguma arte, as técnicas básicas não serão suficientes para o combate – Cb Glauco

O principal objetivo deste artigo é despertar nos policiais a percepção da importância do conhecimento de técnicas de defesa pessoal para sua atividade profissional.

Meu caso pessoal, bem como do Sd Marconi e Cb Glauco, demonstram que, no dia-a-dia policial, mesmo abordagens simples podem ser bem difíceis se os militares não tiverem um mínimo conhecimento de defesa pessoal.

 

 Participe você também deste artigo! Conte um “causo” de polícia em que foi preciso usar alguma técnica de defesa pessoal e imobilização! Para quem pratica alguma arte marcial, relate o que mudou na sua forma de trabalhar.

9 Comentários


  1. Excelente o artigo, o utilizei como base para um trabalho no curso de formação, com o tema da importância da defesa pessoal para o policial militar, padrão! Se todos despertassem essa preocupação, facilitaria muito o trabalho policial, como dito ” nem toda ocorrência é resolvida no tiro, muito pelo contrário..”
    No curso estou tendo o ensinamento da disciplina através de técnicas de Aikido, modificadas para a função policial militar.

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    1. Boa tarde, Sd Nunes

      O objetivo deste tema foi exatamente despertar o interesse dos militares para a importância do conhecimento de técnicas de defesa pessoal para a atividade policial.

      Fiquei muito feliz de saber que o artigo foi usado como referência em seu trabalho do curso de formação. Muito obrigado por ter dado este retorno aqui no blog.

      Forte abraço!

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  2. Estou estudando para a prova ainda, não entrei na corporação mas sempre acompanho notícias e tudo mais sobre a PM, já tentei duas vezes porém sem êxito, parabéns pelos artigos, muito interessante todos os temas abordados. Eu faço muay thai, meu prajied é vermelho ponta branca, é uma arte marcial mais de combate e não de imobilização, mas como tenho curso de vigilante armado eu aprendi boas técnicas de algemação e condução, em breve pretendo aprender muito mais dentro da corporação, tenham um bom dia!!!

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    1. Bom dia, José Geraldo

      Bom saber que você tem interesse em entrar nesta guerra ao nosso lado. Tenho alguns colegas de serviço que já foram seguranças e agentes penitenciários e hoje são policiais militares. Espero que, em breve, você seja o próximo!

      Como você disse que já tentou duas vezes e não conseguiu, talvez esteja estudando da forma errada. Sugiro a leitura do artigo Qual é o segredo para passar no concurso da polícia. Tenho certeza que ele te ajudará a vencer a concorrência no próximo concurso.

      Avante guerreiro! Forte abraço!

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  3. Excelente artigo, sou Agente Penitenciário e praticante de jiu jitsu. Se todos tivessem noções dos bbenefícios da arte suave, teríamos uma segurança publica muito mais qualificada.

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  4. Excelente artigo. Parabéns!
    Quando se trata de qualificar a nossa prestação de serviço como policiais militares vale a pena investir um pouco mais. Não sou praticante de nenhum tipo de arte marcial e já me vi em situações difíceis que poderiam ter sido resolvidas com um dispêndio menor de força física com a aplicação de técnicas de defesa pessoal.

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  5. A inversão de valores no país é imensa. A culpa, em sua maior parte é da nossa imprensa esquerdista e professores comunistas…

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