Como abordar uma pessoa surda?

Tempo de leitura: 4 minutos

abordagem policial a pessoa surda
Foto: www.pmmg.mg.gov.br

Nem todo policial sabe como abordar um surdo. Muitas vezes, é difícil até mesmo perceber esta particularidade do suspeito. Se para o policial é uma situação estressante o suspeito não obedecer as ordens dadas, imagine para o surdo que vê um policial com cara de nervoso, apontando uma arma e gritando ordens que ele não entende.

Provavelmente, você, policial, já passou por esta situação. Como fez para se comunicar com o surdo? Não foi fácil, não é mesmo? Digo isto porque já tive esta experiência duas vezes em minha carreira. Complicado demais dar ordens e o suspeito não acatá-las.


Há poucos dias, estava patrulhando uma região que acontecem muitos crimes. Era madrugada, avistei um rapaz sentado em uma moto, em uma rua bem escura, e olhando fixamente para dentro de uma casa. Minha equipe suspeitou que pudesse haver algo errado ali. Fizemos a abordagem por trás do suspeito, mandamos colocar as mãos na cabeça e ele não obedeceu. Demos um toque na sirene e o cara continuou sentadinho na moto. Aí já era demais!

Fui para frente dele, mandei descer da moto e colocar as mãos na cabeça. Desta vez, ele obedeceu e fez um gesto de negação apontando para o ouvido. Percebi que o abordado era surdo. Mesmo assim, a abordagem tinha que continuar, mas como dar ordens para o suspeito se eu não sabia me comunicar através dos sinais que os surdos usam?

A solução foi falar com ele através de gestos convencionais e mímica. Deu certo e fizemos a busca pessoal, não encontrando nada de errado com o abordado. A motocicleta estava com documentação regular e o jovem estava esperando uma amiga que estava na casa.

No final da abordagem, pensei na falta que faz conhecer a língua brasileira de sinais, LIBRAS. E tenho certeza que, como eu, a maioria dos policiais também não sabem se comunicar através de sinais.

Decidi acabar com esta deficiência minha e aprender a língua de sinais para conseguir me comunicar com os surdos, pois eles merecem que nós, agentes públicos, prestemos um serviço de qualidade. E o básico é entender o que eles querem nos dizer.

 
Entrei em contato com alguns surdos e fiquei surpreso com algumas histórias: um surdo apanhou de um policial durante uma abordagem porque o militar achou que ele estava desobedecendo as ordens. E uma surda passou muitas dificuldades em seu parto porque nenhum funcionário do hospital entendia o que ela esta sentindo.

Ainda não comecei o curso, mas já aprendi algumas dicas que podem ajudar em  nossas abordagens policiais:

  • Normalmente, a pessoa faz sinal que é surdo colocando a mão no ouvido e boca

 

  • Ao abordar um surdo, não adianta o policial ficar gritando ou com expressão de bravo, pois o surdo ficará ainda mais nervoso com a situação


  • Não falar de costas para o surdo. Estando frente a frente, muitos surdos conseguirão entender as ordens apenas lendo os lábios do policial


  • Se quiser falar com o surdo e ele não estiver olhando para você, toque nele e conseguirá sua atenção


  • Procure fazer gestos enquanto fala
 
  • Tenha sempre bom senso e paciência
 
Estas simples dicas facilitarão bastante abordar pessoas surdas. Mas nós policiais não podemos nos contentar com apenas algumas dicas. Temos que nos capacitar, pois os surdos também são cidadãos e merecem um policial que entenda-os perfeitamente.
 

 

Para conhecer melhor a língua de sinais, indicaram-me o livro Libras, que língua é esta?, do autor Audrei Gesser e vídeos de abordagem policial em libras do professor Luiz Albérico Falcão.

 

Estou escrevendo este artigo com muita alegria, pois vi que a comunidade surda é muito grande e merece o melhor tratamento possível, principalmente do setor público. Quando pedi ajuda no face, recebi um retorno tão grande que fiquei muitos dias conversando com pessoas que queriam ajudar de alguma forma.

 

Gostaria de enviar um muito obrigado para Rosângela Mancini, professora de Libras, e um abraço especial para cada um dos intérpretes, dos surdos e seus parentes, que estiveram em contato comigo nos últimos dias e permitiram que eu conhecesse a realidade dos surdos.

Sugiro que compartilhem este artigo com seus amigos para que esta mensagem chegue a todos e que os surdos sejam mais valorizados. Sugiro ainda aos surdos que leiam o artigo O que fazer se for abordado pela polícia?. Vocês aprenderão algumas dicas de como se comportar durante uma abordagem policial.

 

Para finalizar, vou repetir para os policiais a pergunta inicial: Você já abordou alguma pessoa surda? Como fez para se comunicar com ela? Foi uma abordagem tranquila ou teve stress? Conte sua história para nós!

5 Comentários


  1. Puxa, que legal. Que coincidencia. Eu acabei de fazer o curso de Libras para iniciantes na Visao Inclusiva, com o professor Luiz Alberico Falcao. Divulgo o Programa Ciranda Auditiva. Eu fiz gratuitamente. O curso e de grande valia.

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  2. POLICIAIS MILITARES ARRISCAM A PRÓPRIA VIDA POR MUITO POUCO

    A Polícia Militar precisa ser valorizada e fortalecida, pois POLICIAIS MILITARES DESMOTIVADOS significa SEGURANÇA PÚBLICA AMEAÇADA. Vale lembrar que o Rio de Janeiro sediará os Jogos Olímpicos de 2016, sendo o reconhecimento pecuniário indispensável, imprescindível para melhorar a qualidade do serviço policial-militar.

    Nas sociedades capitalistas é comum que o valor de um indivíduo seja aferido através do seu poder de compra, e isso tem muito a ver com seus rendimentos – a quantidade de dinheiro que ele consegue adquirir em determinado espaço de tempo. O salário do Policial Militar do Rio de Janeiro é incapaz de atender às suas necessidades vitais básicas (previstas no inciso IV do artigo 7º da Constituição Federal de 1988).

    Não é à toa que, falando de valorização dos policiais brasileiros, sempre se remete à questão salarial como um problema sério, pois além de garantir elementos essenciais para a sobrevivência, “ganhar bem” concede ao profissional um posicionamento social de relevância. Todo mundo quer maior qualidade na segurança pública, mas para melhorar a qualidade será imprescindível melhorar a questão salarial, ou seja, valorizar o Policial Militar com uma remuneração digna.

    A PMERJ pode reclamar bastante dos seus vencimentos, pois são inadequados para as funções exercidas. Os baixos salários desmotivam a tropa e criam desinteresse pela profissão. Um Soldado de Polícia Militar em início de carreira deveria receber vencimentos iniciais de R$ 8.612,50 (oito mil, seiscentos e doze reais e cinquenta centavos) mensais, para uma jornada de trabalho de até 144 horas mensais. A questão salarial impacta diretamente na autoestima dos Policiais e na valorização das Polícias.

    Os baixos salários fazem a PMERJ perder oficiais e praças. O idealismo vai esmorecendo, pois já não encontra-se mais comandantes com "C" maiúsculo, dignos de orgulho de seus comandados e os vencimentos não são suficientes para dar uma vida digna à família. A tropa da PMERJ está desmotivada, insatisfeita e tem VERGONHA DO SALÁRIO! Não há justificativa para os BAIXOS SALÁRIOS.

    "QUEM VIVE PARA PROTEGER, MERECE RESPEITO PARA VIVER." O Policial Militar precisa ser valorizado como herói! Em contrapartida, a Polícia Militar deveria acabar definitivamente com a Promoção de Praças por Tempo de Serviço! As Promoções devem ser conquistadas mediante aprovação em concursos internos para o CFC, o CFS e o CAS, bem como a conclusão de um Curso de Ensino Superior. Os Policiais Militares que já concluíram o 3º Grau deveriam receber um acréscimo no salário, como é feito na Guarda Municipal do Rio de Janeiro. Quem se qualificou tem que ser premiado. É a única forma de incentivar o estudo, a qualificação.

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  3. Complicado msm; já tinha pensado em aprender libras, no futuro.
    Acho que seria interessante um artigo sobre abordagens fora de serviço, o que acha?

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