Segurança pública, responsabilidade de todos, não só da polícia

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No último dia 11 de novembro, foi divulgada com grande destaque uma conclusão do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: Policiais brasileiros matam em cinco anos mais do que americanos em trinta.

Curioso para saber se esta afirmação seria verdadeira ou uma grande falácia, fiz questão de ler o estudo publicado através do 8º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, coordenado por Renato Sérgio de Lima, professor da EAESP/FGV e pesquisador de Direito SP, e Samira Bueno, doutoranda da EAESP/FGV.

O art. 144 da CR/88 prevê que segurança pública é direito e responsabilidade de todos, ainda que seja dever do Estado garanti-la.

E contrário ao que muitos acham, não cabe somente a polícia garantir a paz no seio da sociedade e justiça para aqueles que não obedecem as leis.

Quando o Legislador inseriu no texto da Constituição da República que a responsabilidade é de TODOS, ele quis chamar cada um dos cidadãos a dar sua contribuição pelo bem comum.

Cabe à polícia militar fazer o policiamento ostensivo e preservação da ordem pública, enquanto à polícia civil apurar as infrações penais.

Mas e o poder judiciário? E os senadores e deputados? E os educadores? E os pais? E cada pessoa do povo? Qual a função de cada um? Ou acham que a polícia consegue fazer tudo sozinha?

Os pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública fizeram uma pesquisa ampla, de forma a avaliar a polícia, os juízes, promotores e políticos.

Realizaram ainda pesquisa de opinião com a população quanto ao nível de confiança destas instituições, bem como do comportamento das pessoas em relação ao cumprimento das leis.

É preocupante saber que 81% dos entrevistados acham fácil desobedecer as leis e somente 33% confiam na polícia.

A comparação entre mortes provocadas por policiais do Brasil e dos EUA é tanto quanto temerária, pois o povo brasileiro tem um péssimo hábito de não ler. Contentam-se somente com o título da matéria.

Para quem leu ou apenas ouviu dizer que a polícia do Brasil matou em cinco anos mais que a dos Estados Unidos em trinta, a impressão que ficou é que temos uma polícia assassina.

Não estou dizendo que 11.197 pessoas mortas em cinco anos seja um número pequeno, mas que esta é apenas uma variável dentro de um contexto muito complexo que é a segurança pública brasileira.

Se em nosso país, policiais matam muito, também morrem muito. Só em 2013, foram mortos 490 policiais.

Ou seja, a cada três dias, quatro policiais são mortos.

Que país é este? Realmente vivemos em tempo de paz?

O professor de estudos organizacionais da EAESP/FGV, Rafael Alcadipani, apresenta o número de policiais que perdem a vida em outros países, deixando clara a discrepância de nossa realidade:

(…) EUA, país no qual 96 policiais foram mortos em serviço, em 2013. No Reino Unido, desde 1900 até hoje, são raros os anos em que mais de 8 policiais perdem suas vidas em decorrência de sua profissão.

Nos artigos Policial também não merece morrer e Insegurança pública: assassinato do soldado André foi a gota d’água para os policiais deixamos bem claro que a missão da polícia não é matar, mas também não aceitamos morrer.

Dentro deste contexto de morticínio de policiais no Brasil, o professor Rafael Alcadipani afirma que

um Estado onde é natural que um policial perca a sua vida em razão de sua profissão é um Estado que está sob a lógica da barbárie.

Em um país que tantas pessoas falam mal da polícia, principalmente a imprensa sensacionalista, faço questão de transcrever o comentário do jornalista Alexandre Garcia, que ilustra bem a forma de pensar de grande parte do povo brasileiro:

Manchetes dos jornais aqui do Brasil dizem que em 5 anos a polícia brasileira mata mais que a polícia dos EUA em 30 anos.

Eu não sei porque nós detestamos a polícia. Devemos amar os bandidos, deve ser isso. Adoramos os bandidos e detestamos a polícia, porque a polícia representa a lei.

A polícia não vai permitir que a gente cheire cocaína, por exemplo. Ou saia fumando maconha por aí, vendendo maconha. Polícia não deixa. Talvez seja por isto.

Aí a gente diz: olha, a polícia mata seis por dia. Hã, hã… E quantos policiais são mortos por dia no Brasil, pelos bandidos? 1,3 por dia. 490 policiais foram mortos no ano passado. Sabem quantos policiais são mortos nos EUA? 70 por ano.

Ou seja, aqui matamos sete vezes mais policiais. É o país do mundo em que mais policiais são mortos no cumprimento do dever, defendendo os outros, defendendo a lei.

Outra comparação: sabem quantos homicídios tem nos EUA, por ano? 12.996 no último ano. No Brasil, 56.000. E os EUA tem uma população que é muito maior que a brasileira. São 300 milhões. Aqui são 200 milhões. Dá 4 por 100.000 habitantes, homicídios. Aqui é 26 por 100.000 habitantes.

Quer dizer, então esta comparação é fajuta. É só para a gente criticar a polícia, porque nós detestamos a polícia aqui no Brasil. Não na hora que somos assaltados, porque aí nós queremos que apareça a polícia.

Outra diferença é que, lá nos EUA, os policiais heróis são tratados como heróis; aqui policial herói é esquecido. O bandido é que é glorificado aqui, vira famoso porque vira notícia.

Bom, vamos mudar de assunto, porque este assunto, de certa forma, é irritante para quem acha que devemos ser um país civilizado.

3 Comentários


  1. Concordo plenamente que, em nosso país, existe uma inversão de valores quando se trata da polícia.

    Infelizmente, do mesmo jeito que a imprensa eleva, ela destrói. Quantas vezes a imagem de uma abordagem policial é repetida em programas sensacionalistas provocando a sensação de que o policial agiu errado. Isto coloca na mente das pessoas que policial não é um bom profissional.

    Por outro lado, exaltam atitudes de infratores da lei com a justificativa de que eles são vítimas da sociedade e não tiveram opção na vida.

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  2. Os pais são responsáveis por futuros autores de crime, pois não deveriam gerar filhos quem não queria dar-se ao trabalho de criá-los e educá-los. Me impressiona a hipocrisia da Rede Globo, pois a inversão de valores é a maior produção de todos os tempos da televisão brasileira. O Policial Militar precisa ser valorizado como herói e a Polícia Militar precisa ser fortalecida, não pode ser enaltecida apenas nas vitórias, mas respeitada principalmente nas derrotas.

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  3. A Polícia não mata ninguém, pois os Policiais só atiram em legítima defesa! Os criminosos só morrem quando decidem enfrentar a Polícia, atirando nos Policiais. Quando o bandido morre no confronto, sua morte é consequência de seus próprios atos, pois nenhum Policial tem a intenção de atirar em ninguém, só atira para se defender de uma injusta agressão! Aqui no Brasil, os valores estão sendo invertidos. O Policial é o Estado!

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