Motorista de viatura é um condutor acima da lei?

Tempo de leitura: 5 minutos

Quais as diferenças e semelhanças entre o motorista de uma viatura policial e o motorista de um veículo particular?

O policial que dirige uma viatura pode ser comparado àquele motorista que conduz seu automóvel tranquilamente pelas ruas da cidade ou está mais próximo de uma categoria especial de condutores?

Atualmente, a maioria dos policiais vai para o quartel em seu carrinho ou moto particular e, durante o turno de serviço,  dirige a viatura ou motocicleta policial.

Quando o policial é o condutor nas duas situações, o que muda? Os direitos e deveres são os mesmos ou não?

Assistindo  um desenho do Pateta, lembrei-me na hora de alguns policias que conheço.

No desenho, o Pateta é um cidadão super tranquilo, mas ao entrar no carro e sentar no banco do motorista, transforma-se no Senhor Volante, um condutor acima de todos os outros.

No meio policial, temos alguns “Senhores volante”. Eles cuidam de seu carro particular como se fosse a coisa mais importante do mundo, mas quando entram na viatura, transformam-se.

Pulam quebra-molas, andam em velocidade incompatível com a via, trafegam na contramão, desobedecem o sinal vermelho do semáforo, realizam manobras arriscadas e muitas vezes desnecessárias…

Muitos policiais acreditam ser requisito essencial a coragem de afundar o pé no acelerador como um piloto de corrida; que um bom motorista de viatura deve ser um ás do volante, apto a encarar qualquer perseguição em meio ao trânsito complicado de nossas cidades.

Este tipo de motorista não erra sozinho. Ele tem um comandante de guarnição omisso ou irresponsável, que não impõe limites e até instiga a fazer além do razoável.

Certa vez, escalaram um recruta para aprender o serviço de moto ROTAM comigo.

O militar era muito gente-boa, esforçado, gostava de fazer abordagens, interessado no serviço, mas tinha um defeito:

Não percebia nenhum suspeito pelo caminho que passávamos, justamente porque corria demais.

Conversando, entendi que ele cometia aquele erro porque, antes de ser policial, era motoboy.

Expliquei que tinha hora para tudo, inclusive para acelerar ao máximo. Com o tempo, ele melhorou bastante.

Um dos principais erros do motorista de viatura, talvez o pior deles seja achar que está acima da lei e não precisa respeitar as regras de circulação previstas no Código de Trânsito Brasileiro.

Esta é uma das principais causas de diversos acidentes de trânsito envolvendo viaturas policiais. E o resultado costuma ser mais que material:

Policiais tornam-se vítimas graves, quando não fatais destes acidentes. Pior ainda quando vitima também cidadãos civis, uma criança ou pessoa idosa.

Há alguns anos, o comandante do batalhão ROTAM tomou uma atitude drástica para reduzir o número crescente de acidentes.

Retirou as viaturas batidas lá do cantinho onde ninguém via  e colocou em locais que todos passavam.

No outro dia, tinha Blazer batida no portão do estacionamento, na quadra de peteca, ao lado da bomba de combustível, na laje da academia, perto da cantina…

Foi chocante, mas parece que surtiu o efeito esperado: os acidentes diminuíram desde então.

Lembro de meu primeiro dia na equipe de motociclistas. Recebi as boas-vindas e um conselho especial:

Sirene e giroflex abrem caminho, mas não fazem do policial um super-herói.

Um dia, estava perseguindo um indivíduo suspeito em uma moto e, ao passar direto em um cruzamento sinalizado com placa de parada obrigatória, um carro que trafegava na outra rua bateu na roda traseira de minha moto.

Voei longe! Quando bati no chão pela primeira vez, lembrei das sábias palavras do meu chefe de equipe no meu primeiro dia de serviço.

Mas aí era tarde demais para lamentar. Como sempre diz meu pai: “Quem não ouve conselho, ouve coitado”.

Graças a Deus, sofri apenas escoriações. Mas a moto ficou toda torta, deu PT, o outro carro ficou com a frente toda amassada. O perito chegou ao local e adiantou que a culpa foi minha.

Contabilidade final da correria: alguns relados pelo corpo, punição disciplinar na PM, infração de trânsito, além da cobrança dos danos do veículo particular e da motocicleta policial. Que prejuízo!

Este foi meu último acidente. De lá para cá, passaram-se cinco anos. Continuo correndo muito, mas também com muita cautela na condução.

Com o tempo, aprendi que o principal objetivo do policial é voltar para casa, para o seio de sua família.

Prender bandidos é consequência do trabalho bem feito. Se não prender hoje, prende amanhã.

Por outro lado, se colocar uma prisão acima de tudo, principalmente da segurança na direção, o amanhã pode virar um nunca mais.

Retornando a pergunta inicial sobre diferenças e semelhanças entre motoristas de viatura e motoristas de veículo particular, não somente uma única resposta correta.

No entanto, uma deve ser consenso, principalmente para os policiais: ambos devem obedecer as regras de trânsito.

Mas devido a peculiaridade do serviço policial, o próprio CTB autoriza conduta diversa do previsto para os demais condutores:

Código de Trânsito Brasileiro

Art. 29 – O trânsito de veículos nas vias terrestres abertas a circulação obedecerá as seguintes normas:

VII – Os veículos… de polícia… além de prioridade de trânsito, gozam de livre circulação, estacionamento e parada, quando em serviço de urgência e devidamente identificados por dispositivos regulamentares de alarme sonoro e iluminação vermelha intermitente…

d) A prioridade de passagem na via e no cruzamento deverá se dar com velocidade reduzida e com os devidos cuidados de segurança, obedecidas as demais normas deste código.

Por isto, o motorista deve pensar duas vezes antes de fazer loucuras para prender bandidos que não ficarão muito tempo atrás das grades. Quando não saem da delegacia antes da equipe policial.

Alguns podem dizer que meu discurso é desestimulante. Que desanimarei os poucos policiais que suam a camisa e dão seu sangue pelo bem da sociedade.

Muito pelo contrário, o que sugiro é a profissionalização, o trabalhar de forma correta. Segurança sempre!

2 Comentários


  1. Boa tarde, Kerton

    Quantas correrias já fizemos lá em BH. Enquanto está dando certo, é só alegria.
    Quando dá errado, é hora de levantar, bater a poeira e levantar as mãos par ao céu por não ter acontecido nada de mais grave.
    Mas com o tempo e os tombos, vem a experiência.

    Sgt Silvino
    @blogdograduado

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  2. falo e disse pedrão…so depois que acontece que agente vai vendo…abraço.
    kerton

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