Tráfico de drogas: guerra sem fim no coração do Brasil

Tempo de leitura: 14 minutos

Analisando o documentário “Notícias de uma guerra particular”, do cineasta João Moreira Sales e produtora Kátia Lund, percebemos características da segurança pública carioca da década de 90 presentes nas principais capitais brasileiras de hoje.

As causas e consequências continuam atuais e os sujeitos vão apenas sendo substituídos.

O filme apresenta uma guerra decorrente do tráfico de drogas. O enredo retrata a origem do tráfico, aspectos social e empresarial, relação drogas e armas, combates com polícia, violência e corrupção policial, depoimentos de policiais, traficantes e moradores da favela.

1 – Origem da guerra

O escritor Paulo Lins fala sobre o início do tráfico nos morros, onde os grupos brigavam pelos pontos de venda e a violência era rotineira: negro matando negro, nordestino matando nordestino.

Porém, até então, isto não era notícia. Somente o povo da favela sabia do seu sofrimento.

A imprensa só expôs este problema quando a violência desceu para o asfalto e assustou o restante da sociedade, em forma de sequestros, Comando Vermelho, balas perdidas…

Um ponto relevante para o fortalecimento do tráfico foi a formação do Comando Vermelho, fato originado por uma decisão infeliz do próprio Estado.

Cinco presos políticos foram encaminhados ao mesmo presídio que os presos comuns mais perigosos do Rio de Janeiro.

A ideia era que estes dominassem aqueles, mas aconteceu justamente o contrário e os presos políticos implantaram sua ideologia na cabeça dos presos comuns, união da qual nasceu o Comando Vermelho.

2 – Aspecto social

Dentre os princípios do Comando Vermelho – Paz, Justiça e Liberdade – a justiça se destacou em razão da omissão do Estado em políticas sociais para os moradores da favela.

Onde o Estado não estiver, o Comando Vermelho vai chegar e tomar conta (Gordo – fundador da organização)

O tráfico ajuda os moradores. Os moradores ajudam o movimento (traficante)

Se eu não tenho dinheiro para comprar remédio para minha filha, eu vou no movimento e levo a receita. Daqui a pouquinho, o remédio chega (Janete – moradora da favela)

A maioria do morro fica do lado do pessoal do movimento aqui do morro (criança da favela)

Além da questão relacionada ao qualidade de vida que os moradores levam na favela, uma completa exclusão, há ainda o fator de auto-afirmação do jovem perante os outros.

E através do tráfico, ele consegue esta ascensão. Ainda que seus momentos de prazer sejam curtos. Mas eles parecem não se importar com as consequências ou perigos.

Eles tem uma afirmação de valor pelos atos cometidos em razão do tráfico (Itamar – líder comunitário)

As cocotas lá de baixo tem atração em ver o jovem com uma arma pesada na mão (Janete – moradora da favela)

Ando armado… gosto de bermuda Ciclone e tênis Nike… não tenho medo de morrer (olheiro – 13 anos) 

3 – Aspecto empresarial

O tráfico de drogas é uma empresa. Ilegal, na verdade, mas que emprega um contingente na casa de 100.000 pessoas.

Aproximadamente o mesmo número de funcionários da prefeitura do Rio de Janeiro. Além de dar serviço, paga bem por ele, uma renda muito superior a recebida por um trabalhador comum.

Se conseguir emprego, vai trabalhar 8 horas por dia para ganhar R$ 112,00 por mês. No tráfico, R$ 300,00 por semana. É um emprego em que ganha mais que o pai (Hélio Luz – chefe da polícia civil do RJ)

Financeiramente falando, como esperar que um jovem morador da favela prefira trabalhar por um salário que não daria para sustentar sua necessidades mais básicas quando o tráfico paga quase o triplo por semana?

Como todo empreendimento comercial, o tráfico precisa de uma clientela para consumir seu produto.

E aí entra uma parcela da sociedade que tenta se eximir de qualquer responsabilidade ou culpa na guerra: são as pessoas que se denominam cidadãos de bem.

Indivíduos que levam uma vida normal, tem família, bom emprego, estuda, mora em um bairro bom da cidade.

Eles nunca vão a favela, ou melhor, só vão a favela para comprar droga. E consideram que não tem participação alguma na guerra do tráfico.

A sociedade é que dá o lucro, gasta R$ 1000,00 R$ 2000,00. A maioria da classe alta. O pobre não tem condições de gastar R$ 2000,00 cheirando cocaína porque o filho vai passar fome no outro dia. O rico gasta e não vai fazer falta. (traficante)

A classe média é que dá o dinheiro. E com este dinheiro, o traficante vai comprar armas. Eles são parte dos inimigos. E reclama depois da violência. (Soldado Milton – BOPE)

4 – Relação drogas x armas

O aumento do tráfico de drogas é proporcional ao aumento do número de homicídios em determinada região. Isto se dá em razão do caráter ilegal do movimento.

As disputas pelos pontos de venda são sangrentas. O ponto não é comprado, mas tomado. Não se pede licença, se mata.

O traficante não vai ao judiciário para requerer pagamento de dívida, ele mesmo cobra. E a moeda é sempre a vida do devedor.

Os traficantes são extremamente violentos para manter o domínio através do exemplo. Vacilou, morreu (Janete – moradora da favela)

Mas para isto é necessário armamento. E, infelizmente, o Estado novamente contribui, desta vez pelo setor que deveria combater o crime, a polícia. Claro que não a instituição, mas uma minoria que mancha a imagem de todos.

São alguns policiais, digo, bandidos fardados que vendem armas para os traficantes, tanto armamento da própria polícia, quanto armas apreendidas durante operações e que voltam para as ruas, clandestinamente.

A polícia chega e abre o porta-malas e manda escolher a arma que a gente quer comprar. Mas é polícia conhecida. (traficante)

No filme, o capitão Pimentel apresenta o armamento pesado do BOPE, com destaque para uma arma de grosso calibre, típica de guerra, que, das polícias do mundo, somente a do Rio de Janeiro utiliza.

Em contrapartida, um traficante apresenta o armamento encontrado na favela, incluindo diversas armas estrangeiras.

Seria ingenuidade acreditar que as armas do morro chegam somente por policiais corruptos. O contrabando de armas é intenso em nosso país.

Quem não se lembra de uma escuta telefônica na qual o cantor Belo foi flagrado negociando um fuzil, em 2006? Nosso vizinho Paraguai também é grande fornecedor de armas para o Brasil.

Para se falar de tráfico tem que falar do contrabando de armas. O lucro do narcotráfico e o lucro da venda de armas está muito próximo (Hélio – delegado da polícia civil)

5 – Combates com a polícia

O enfrentamento é diuturno, 24 horas por dia. Tanto traficantes, quanto policiais se especializam nas táticas de guerrilha. Tendo armamentos modernos de ambos os lados, as baixas são inevitáveis.

Quando a polícia vem, se der para sair, eu saio. Se não der, eu atiro, sento o dedo mesmo. Se mata o inimigo, faz festa. É uma vitória (traficante)

Se em uma operação, morre algum bandido, eu volto para casa e não perco o sono. Tenho a sensação de dever cumprido (Capitão Pimentel – BOPE)

Já participei de diversos confrontos armados. Se estivesse nas forças armadas, talvez não tivesse participado de nenhum (Capitão Pimentel – BOPE)

A parte final do filme mostra enterros de policiais e de traficantes. E para tristeza de todos, isto tem se tornado regra nesta guerra. Cada vez se mata mais.

Se morre um policial, no outro dia ele é substituído. Se morre um traficante, o grupo inimigo toma a boca e mantém o tráfico. E assim o combate continua…

6 – Violência policial

Um fator inerente a atividade policial é o uso da força, previsto em lei. Mas a deturpação desta previsão legal leva os policiais a violência. Não somente contra os bandidos, mas até mesmo contra os moradores dos morros.

A polícia chega e leva TV, vídeo, falando que é do tráfico, mesmo a pessoa sendo honesta e tendo nota fiscal dos aparelhos (moradora da favela)

Quando o garoto é preso, a polícia sobe mais o morro com ele. A família vai atrás para evitar agressão ou execução. Anda o morro todo, até a polícia descer e levar o preso para a DP (moradora da favela)

7 – Corrupção policial

Como citado acima, a corrupção é uma realidade dentro das instituições policiais. Quando esta afirmação parte de dentro, principalmente através do principal representante do órgão que deveria evitar os crimes, a sociedade fica desamparada.

A polícia é corrupta. Foi criada para ser violenta e corrupta, para fazer segurança de Estado e da elite, para fazer política de repressão em benefício do Estado, para manter a favela sob controle, para manter os excluídos da sociedade sob controle, através da repressão. (Delegado Hélio Luz – Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro)

Tem um ditado que diz que “a sociedade tem a polícia que merece”. O delegado segue este princípio em seu discurso.

Realmente a sociedade cobra atuação firme da polícia quando é contra o bandido, o favelado, o pobre, o negro, o excluído de um modo geral.

Mas se a polícia cumpre seu dever a risca, doa a quem doer, aí não. A polícia está abusando de sua autoridade, é muito repressiva.

“É possível ter um polícia não corrupta e que trabalha correto. A sociedade não ficaria satisfeita porque vai agir também contra as pessoas de bem. Há interesse da sociedade em ter uma polícia que não seja corrupta?

Você terá que parar de estacionar em local proibido e avançar sinal. Não pixar. Parar de cheirar em Ipanema. Vai ter cumprimento de mandado de busca com pé-na-porta na Delfim Moreira (Leblon). A sociedade vai conseguir segurar isto?” (Hélio – delegado da polícia civil)

8 – Depoimentos

Deixei para o final algumas opiniões dos principais envolvidos nesta guerra. Apesar de estarem em lados opostos, eles não divergem muito.

Tem dezenas de jovens esperando a vez de entrar no movimento (Capitão Pimentel – BOPE)

Entrei no movimento com 11 anos. Na primeira missão, matei um X-9 que passou para a polícia o local da dolação. Peguei sete pneus de caminhão, cinco litros de gasolina e botei fogo no X-9 (menor interno)

Não vejo luz no fim do túnel. Não vejo soluções(Capitão Pimentel – BOPE)

Estes jovens são suicidas (morador da favela)

Nunca vai ter fim esta guerra (Soldado Milton – BOPE)

Vou ficar nesta vida até morrer (traficante)

As forças do bem perderam a guerra (Delegado Hélio – Polícia Civil)

O único segmento do Estado que vai ao morro é a polícia. Só a polícia não resolve (Capitão Pimentel – BOPE)

9 – Considerações finais

Notícias de uma guerra particular foi um documentário produzido nos anos de 1997 a 1998 e apresentado em 1999. Apesar de contar com quase vinte anos, ele apresentou uma realidade que, em diversos aspectos, vigora até hoje.

No conteúdo histórico, citou-se o Comando Vermelho. Atualmente, o crime é cada vez mais organizado, tendo o tráfico de drogas como um dos principais fontes de renda, senão a maior.

Outras organizações criminosas se formaram, com destaque para o Primeiro Comando da Capital (PCC), grupo paulista com ramificações em todo o país.

Quanto ao aspecto social, é evidente que onde o Estado é inerte ou omisso, abre-se um espaço que é ocupado por alguém.

É nesta lacuna que criou-se e cresce consideravelmente o Estado paralelo. Entre ser um desamparado pelo governo e um acolhido pelo movimento do morro, que opção tem o morador?

Não que o tráfico vá urbanizar a favela, oferecer saneamento básico, mas o mínimo necessário para sobrevivência o povo acredita que terá.

Já no quesito do aspecto empresarial, isto é uma consequência das políticas públicas.

Enquanto o Estado trata o cidadão com exclusão, impondo um salário mínimo que mal dá para as necessidades mais básicas de sua família, o tráfico trata com inclusão, pagando o triplo semanalmente.

Por outro lado, temos uma sociedade hipócrita que fomenta o tráfico com seu dinheiro e ainda reclama quando a violência atinge sua vida.

Se o comerciante legalizado monta um sistema de segurança para proteger sua empresa, o tráfico não é diferente. Aí é que entra o comércio de armas, que tanto vem da polícia, quanto do mercado negro.

E sabemos bem que traficante não vai sair da favela para ir em outro país comprar estas armas. Tem gente forte neste meio.

E mexer com este pessoal seria como cutucar um vespeiro. Teria que mudar algumas leis para conseguir sucesso na missão. Mas quem teria interesse de mudar estas leis em malefício próprio?

Os enfrentamentos traficantes x traficantes e traficantes x policiais são tão constantes nas grandes cidades que tornaram-se comuns. Na mesma proporção, também cresceu o número de mortos de ambos os lados.

Há poucos dias, escrevemos sobre a morte de DG, jovem que estava em um churrasco na laje da casa de um traficante na favela Pavãozinho, Rio de Janeiro e morte do soldado André que tentou evitar um assalto em Belo Horizonte.

No que tange a violência e corrupção policial, percebo que diminuiu, mas não acabou. Se naquela época, não havia tanta fiscalização, hoje muita coisa mudou.

O Estado disponibiliza a população muitos órgãos fiscalizadores da atividade policial: corregedoria, ouvidoria, comissão de direitos humanos, entre outros.

Além do nível de instrução para ingresso ter sido elevado, sendo exigido nível superior em diversas instituições. Isto, por si só, não quer dizer que teremos profissionais melhores, mas é um filtro para aquele que só tinha a oferecer a força física.

Os depoimentos dos envolvidos diretamente nesta guerra são bem pessimistas. Até mesmo porque eles vivenciavam a guerra de dentro.

Eu, no entanto, tenho uma expectativa diferente deles. Não que seja um alienado. Também sou policial e combato na linha de frente. Sei que não vou conseguir mudar o mundo, mas busco melhorar minha corporação e minha comunidade.

Podem dizer que sou um sonhador, mas acredito neste sonho.

2 Comentários


    1. Boa tarde, Paulo

      Não entendi bem em que parte do texto está sua dúvida.

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