Insegurança pública: assassinato do soldado André foi a gota d’água para os policiais

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Belo Horizonte, 16 de maio de 2014 – André Luiz Lucas Neves, 27 anos, soldado da Polícia Militar de Minas Gerais, viu um assalto ocorrendo e cumpriu seu juramento profissional, mesmo estando de folga.

Ele conseguiu evitar o assalto, mas, infelizmente, foi morto com dois tiros, um nas costas e um no peito, tornando-se mais uma das milhares de vítimas da violência que assombra o Brasil.

  • Ítalo, 22 anos, registros policiais por roubo e desmanche de veículos, foi morto com um tiro na nuca, dentro do veículo em que fugia com seus comparsas, segundo a perícia;
  • José, 30 anos, registros policiais por ameaça com arma de fogo e tentativa de homicídio, foi preso logo após o assassinato de André de posse de um revólver .32;
  • Wilson, 25 anos, registros policiais por porte ilegal de arma de fogo, diversos roubos, clonagem de veículos e receptação, conseguiu fugir logo após o assassinato de André, levando a arma do militar. Após quatro dias foragido, apresentou-se a polícia e entregou a pistola roubada, sendo encaminhado ao presídio, onde ficará preso provisoriamente.

No final das contas, um bandido morto e dois presos. A justiça está sendo cumprida, conforme nosso ordenamento jurídico.

Mas e o soldado André? Ele não voltará mais para casa. Sua família não verá mais seu sorriso.

Isto é justo? Que país é esse? O que falar para os pais que enterraram o filho?

Dizer que está sendo cumprida a lei pela qual André morreu defendendo? Lei, justiça? Mas isto é justo?

Não! Isto não é justo para André. Não é justo para a sua família. Não é justo para os policiais.

O que ocorreu e ocorre diariamente nas ruas, nas delegacias e nos tribunais não é justiça. Isto é impunidade!

Meu Deus, até quando suportaremos tamanha impunidade em nossa sociedade? Nem mesmo os agentes de segurança pública estão seguros.

Policiais, bombeiros, agentes penitenciários, guardas municipais. Que mãe gostaria de ver seu filho vestindo uma farda ou uniforme para combater criminosos, colocando sua vida em risco?

No artigo Minha mãe protetora, falei sobre a angustia da família ao saber que o filho escolheu uma dessas profissões.

O assassinato do soldado André foi a gota d’água para os policiais. Sou policial e amanhã poderei ser eu a próxima vítima. Eu ou outro colega de profissão em alguma cidade de nosso país.

Ninguém está livre do perigo. Ninguém! Nem mesmo aquele policial que nunca colocou um pezinho na rua para combater o crime.

E não adianta falar que é da banda de música ou da área de saúde. É policial, está ameaçado.

Um exemplo claro aconteceu no Maranhão, no dia 15 de maio: uma escrivã de polícia foi morta a facadas dentro da delegacia de mulheres.

O autor do homicídio foi prestar depoimento, pois estava sendo investigado pelo estupro de suas filhas. No entanto, o homem matou a escrivã e feriu uma investigadora que tentou auxiliar a colega.

A morte de soldado André aconteceu exatamente vinte e quatro dias após a morte de DG, o bailarino do programa Esquenta da rede Globo.

DG foi morto por policiais em uma favela do Rio de Janeiro e provocou grande comoção entre artistas, tendo direito a um programa exclusivamente em sua homenagem.

Não digo que ele não merecesse a homenagem. Quem determina a produção do programa é o canal de televisão. Cabe a mim assistir ou desligar a TV.

O que quero dizer é que, se DG não merecia morrer, o soldado André também não. Se a família de DG mereceu a visita dos defensores dos direitos humanos, a família de André também merecia.

Mas passadas duas semanas, os pais do policial continuam aguardando. Foi exatamente esta discrepância valorativa que quis mostrar no artigo Policial também não merece morrer.

A sociedade de bem não aguenta mais. As pessoas perceberam que a justiça só é justa para beneficiar os infratores.

Os cidadãos estão ficando desiludidos com a justiça dos homens, aquela em que a polícia prende e o bandido fica solto; se preso, volta para as ruas rapidinho; se fica preso um pouquinho mais, comanda o crime mesmo de dentro das cadeias.

O estado de espírito do cidadão comum é de completo descrédito com as leis brasileiras. As pessoas de bem decidiram resolver esta questão fazendo justiça com as próprias mãos.

No artigo Amarrar bandido no poste virou moda, o castigo é, no máximo, umas pauladas ou chicotadas. Imagine se os agentes de segurança pública aderirem a esta moda.

Não estou incitando a violência, mas não podemos descartar a possibilidade de começar a aparecer bandido pendurado em árvores por aí.

Por fim, gostaria de destacar a mensagem de um jovem que muito me emocionou. Principalmente pelo fato de ele não ser policial, nem mesmo pertencer a família militar.

Seu texto foi duro e comovente. Seu objetivo foi demonstrar sua revolta como cidadão, fazendo um desabafo contra a escalada da violência e a apatia das pessoas quanto ao fato.

Muito mais que isto, Vinícius levou um alento a todos os policiais e a família de André.

Vocês conhecem o André? Eu não. André foi um cara que não conheci. Mas apesar de não tê-lo conhecido, julgando pela quantidade de amigos que estiveram em seu velório, afirmo com segurança que era uma boa pessoa.

André foi criança, passou por experiências de vida as quais definiram o rumo que mais tarde viria tomar. André tinha uma família, tão grande ou tão pequena quanto a nossa! Tinha irmãos, primos, namorada, amigos… Tinha mãe.

André se divertia, estudava e trabalhava. Infelizmente escolheu uma profissão muito ingrata para exercer nesse país. Escolheu ser policial. O que ele tinha na cabeça? Não sei. Posso pensar que queria mudar o mundo, ajudar as pessoas, eu realmente não sei.

Talvez sua mãe tenha lhe dito: Filho, não vá ser policial não! É muito perigoso. Talvez André fosse cabeça dura, afinal, ser policial num país como esse não é uma das melhores escolhas a se fazer. Mas é uma daquelas escolhas que não são feitas por qualquer um. Sempre tive certeza que é uma escolha para poucos…

Antes que você canse da quantidade de vezes que escrevo “André” nesse texto explico que é intencional. Quero que saiba que ele tinha nome e sobrenome. André Luiz Lucas Neves morreu neste fim de semana, enquanto saía de um bar, vestido como qualquer um de nós…

Uns dizem que ele tentou ajudar um casal que era assaltado por três caras e acabou baleado na cabeça. Outras fontes dizem que ele e outra pessoa é que foram as vítimas. Sinceramente, como ele morreu pouco importa. Me interessa o porquê.

Ele morreu porque tentou reagir a 3 marginais, morreu porque estava cansado dessa filhadaputagem que é este país, pensou que tinha ali uma oportunidade de colocar tais seres onde de fato mereciam.

Infelizmente ele não teve. André Luiz Lucas Neves morreu aos 27 anos porque saía de um bar e decidiu ajudar alguém! Decidiu ajudar alguém que sequer conhecia. Decidiu ajudar a gente.

Você dificilmente ouvirá falar no nome dele de novo. É por essa triste certeza que tanto faço questão de repeti-lo.

André Luiz Lucas Neves não será símbolo de uma luta contra a desvalorização dos agentes de segurança pública. Não será símbolo de uma luta contra o nosso fraquíssimo sistema penal!

Você não vai ouvir falar nele de novo! André Luiz Lucas Neves não será símbolo de nada, infelizmente.

A imprensa não vai lá na mãe dele convidá-la para um programa de TV populista para mostrar qual é a dor de uma mãe que perde um filho tentando ajudar desconhecidos.

A imprensa não vai mover uma palha de porra nenhuma como faz quando alguém comprovadamente DELINQUENTE leva um tapinha na cara a mais de um policial. A imprensa vai fazer o que já fez: noticiar o fato como se fosse mais um policial morto e pronto.

André é só um número para eles, mas não posso deixar que seja só um número para as pessoas que convivem comigo. A morte de André é culpa de nosso silêncio, é culpa da nossa prevaricação com nosso próprio país.

Amanhã, algum outro marginal será morto e o mundo saberá. Ao mesmo tempo em que outro policial morrerá e só a família dele será avisada.

Como disse, não conheci o André. Mas felizmente tenho muitos Andrés como amigos e, ao saber que André foi morto à paisana concluo que o risco é o mesmo pra mim que estou sempre a paisana, já que não sou policial.

André podia ser Vinícius e talvez comentassem. André podia ser João, José, Mauro e talvez fizessem estardalhaço. Mas André era policial, não vai ter estardalhaço, não vai ter imprensa colocada em cima, artista revoltado nem porra nenhuma!

Entendam apenas que André Luiz Lucas Neves era um ser humano e deixou uma mãe que agora chora. Se você não for hipócrita, entender isso já será o suficiente.

Vinícius, muito obrigado por suas palavras! Somente assim, nós policiais percebemos que não estamos sozinhos na luta.

Desde a morte de André, já fizemos diversas passeatas de policiais pelas ruas de Minas Gerais. Eu fiz questão de participar da que teve em Coronel Fabriciano.

A imprensa que costuma imitar os macaquinhos cegos, surdos e mudos também se manifestou: a revista Veja BH publicou a matéria especial Heróis de Farda e o Conexão Repórter do SBT fez a reportagem especial A um passo do crime, parte I, parte II, parte III.

À família de André, meus sentimentos. Somente quem perde um ente querido, tem a noção do vazio que fica. Clamo a Deus que os abençoe e dê conforto.

Aos militares, façamos desta tragédia um ponto de partida para o combate a impunidade.

5 Comentários


  1. concordo, a impunidade nesse país já estrapolou todas as barreiras, precisamos de um governo justo honesto, para que possa tratar os policiais com dignidade, pois estão ali para proteger a sociedade dos infratores. Ótimas palavras vinicios, ninguem vai se lembrar mais do andre que morreu tentando salvar um desconhecido, precisamos de justiça nesse país, meu sonho é ser um policial para combater com orgulho e amor a farda a impunidade.

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  2. Boa noite, meus amigos.

    Este artigo foi bem comentado e muito compartilhado nas redes sociais.

    Isto só demonstra a indignação que todos estão sentindo com o estado de insegurança pública que vivemos.

    Para se ter uma ideia, em menos de um mês da morte do soldado André, outra mãe já está chorando seu filho.

    Desta vez, é a mãe do soldado Pietro da Polícia Militar do Estado de São Paulo. O site Plantão Policial registrou uma carta emocionada desta mãe que ainda não entendeu porque seu filho amado morreu.
    http://www.plantaopolicialmg.com.br/2014/06/carta-da-mae-do-sd-pm-pietro-da-pmesp.html

    Sgt Silvino – PMMG
    @blogdograduado

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  3. Lindas palavras colega é lamentável mas é a realidade da vida Meliciana! Os nossos Governantes não nós ver…. Até quando…..

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